28/06/09

Sabedoria


"Além da nobre arte de fazer coisas, existe a nobre arte de deixar coisas sem fazer। A sabedoria da vida consiste na eliminação do que não é essencial।"

(Lin युतंग)




23/06/09

Deserto



Dentro de mim havia um deserto, cuja visão não dava nem para rir nem para chorar. Uma paz perigosa aproximava-se, antevendo uma tempestade de areia que obscureceria todo e qualquer oásis. A sede apertava, a temperatura do corpo subia e os pensamentos eram lentos. Caminhava parecendo de pés em chamas, as mesmas que nunca fariam desaparecer as marcas deixadas. O vento agreste cortou-me a pele do rosto, quais marcas que nem uma longa vida desenharia. O olhar tornou-se turvo e desenhou o horizonte possível, mas a exaustão estava perto e o coração clamava por descanso. Mesmo assim, era o caminho que tinha à minha frente, onde o acaso seria um braço dado. Podiam ouvir-se os aromas do deserto como flechas sem dó nem piedade. A areia desenhava braços extensos até onde o olhar alcançava. Os vales deslizavam como seda à minha frente e as pegadas atrás de mim desapareciam magicamente. O vestido deambulava com as mãos do vento forte, desenhando a silhueta estampada no meu corpo. Os cabelos enrolavam-se bordando-se nas costas e alguns deles teimavam em tocar-me os lábios atrevidamente, tais dedos de um amante que seduz. A caminhada durou tanto que deixei de contar o tempo. O frio da noite veio e bateu-me no rosto como um lençól gelado, e enroscou-se em mim como o vento o fizera antes. Com o frio da noite e o suor do dia, um peso descomunál caiu sobre os olhos que olhavam como os gatos que vagueiam na noite.
Queria chegar, mas não sabia onde. O meu destino era tão incerto como o clima do deserto. Perdida de mim, lancei-me como uma espada para o incerto, porque o previsível já há muito se desconjuntara. Restava esperar que a noite que me gelava os ossos passasse e um novo dia se seguisse, com o Sol a acariciar-me como um abraço. E assim poderei ver de novo o dia. O primeiro passou, o segundo virá e um novo tapete se estenderá diante dos meus olhos, novos aromas virão e outros lençóis quentes e frios me alcançarão e cobrirão a errante que fará deles uma segunda pele até que tudo passe. Espero que as ondas de areia se transformem em ondas de espuma...

16/06/09

Eterno


ETERNO: é tudo aquilo que dura uma fracção de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica e nenhuma força jamais o resgata.

Fácil é ouvir a música que tocam difícil é ouvir a sua consciência, mostrando as nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras, difícil é segui-las. Ter a noção exacta das nossas próprias vidas, ao invés de ter a noção da vida dos outros.

Fácil é perguntar o que se deseja saber, difícil é estar preparado para escutar a resposta, ou querer entende-la.

Fácil é chorar ou sorrir quando se tem vontade, difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir de alegria.

Fácil é dar um beijo, difícil é entregar a alma por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida, difícil é entender que pouquissímas delas vão te aceitar como és e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na lista telefónica, difícil é ocupar o coração de alguém e saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites, difícil é lutar por um sonho.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar, difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar, difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixámos levar mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é perguntar “como vai?”, difícil é deizer adeus, principalmente quando somos os culpados pela partida de alguém das nossas vidas.

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados, difícil é sentir a energia transmitida, aquela que toma conta do corpo como uma corrente eléctrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado, difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar é entregar-se e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Falar é fácil, quando se tem em mente as palavras que expressam a nossa opinião, difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá...

Fácil é julgar as pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias, difícil é encontrar e reflectir sobre os nossos erros, ou tentar fazer de maneira diferente algo que já se fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir, difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso e ter confiança no que se diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre a situação, difícil é vivenciar essa situação e saber o que fazer ou ter coragem para o fazer.

Fácil é demonstrar raiva ou impaciência quando algo o deixa irritado, difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.

E é assim que perdemos pessoas especiais.

Carlos Drummond de Andrade

23/05/09

Folhas Secas


Se viver fosse fácil, não teríamos tantas dores e problemas espalhados em todos os cantos do planeta.
A dor visita cada uma das pessoas com tarefas que, ás vezes e à primeira vista, parecem injustas demais, mas que acabam sendo necessárias para o amadurecimento do ser humano.
Problemas são como as folhas de uma árvore imensa que sempre vão cair, de uma maneira ou de outra, num ciclo sem fim. O que muda é a forma como recolhemos essas folhas, ou como tratamos os problemas, pois muitas vezes deixamos as folhas acumularem-se pelo chão sem dar importância devida ao monte que se vai formando e quando olhamos com atenção, as folhas já tomaram conta do chão, dos cantos, das frestas e até dos quintais vizinhos.
Junte as folhas diáriamente, agarre os problemas e resolva-os, removendo o que não serve mais, separando o que é importante do que não é.
Folhas muito secas podem ser queimadas rapidamente, assim como os problemas pequenos aos quais muitas vezes damos importância demais, acumulando-os, sem ao menos pensar numa solução, paralisados pelo medo.
Não espere o Outono chegar e derrubar as folhas todas de uma vez.
Mantenha o jardim da sua vida sempre limpo, cultive flores, regue com bom humor, espalhe as sementes por todos os jardins e receba da própria natureza os lucros da sua dedicação: cheiro de terra molhada, cores e perfumes das flores, frutos que alimentam e paz que preenche o espírito.
Problemas são folhas de árvores. Você é o jardineiro e o semeador da vida e a vida pede cuidados diários.


Enviram-me há algum tempo este texto. Gostei tanto de o ler que o publiquei aqui no meu blog. Na realidade desconhecia o autor. Gentilmente, o autor identificou-se. Ele é Paulo Roberto Gaefke. Obrigada por esse gesto e por este texto magnífico.

14/03/09

Vale a pena pensar nisto...


Gandhi. Uma figura que, à primeira vista, nada tem de especial. Figura franzina e despojada de bens materiais valiosos. Estudou Direito em Londres e exerceu a profissão de advogado na África do Sul e é aqui que Gandhi acaba por permanecer vinte anos na defesa da minoria hindu, liderando a luta de seu povo pelos seus direitos. Como forma de revolução utilizou a não violência. De volta a Índia em 1915, Gandhi passou a exercer o papel de conscientizador da sociedade hindu e muçulmana na luta pacífica pela independência indiana. O uso da não violência baseava-se no uso da desobediência civil. Esta forma de protesto valeu-lhe o encarceramento em prisões, algumas das vezes condenado a trabalhos forçados. A sua luta era tão sómente por um país livre do domínio inglês e muitas vezes usou o jejum como protesto e o boicote à compra de produtos estrangeiros. A 15 de Agosto de 1947 a India torna-se independente, a mesma que se dividira em dois Estados independentes: a Índia - predominantemente hindu - e o Paquistão - predominantemente muçulmano. Em 30 de Janeiro de 1948 Gandhi é assassinado.
Gandhi nunca recebeu o
prêmio Nobel da Paz, apesar de ter sido indicado cinco vezes entre 1937 e 1948. Décadas depois, no entanto, o erro foi reconhecido pelo comitê organizador do Nobel.
Quando o Dalai Lama
Tenzin Gyatso recebeu o prêmio em 1989, o presidente do comitê disse que o prêmio era "em parte um tributo à memória de Mahatma Gandhi".
Sobre Gandhi,
Albert Einstein disse que as gerações por vir terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra.
Na passada semana vimos e ouvimos através dos noticiários que os seus óculos e outros objectos pessoais foram vendidos por 1 milhão e 500 mil euros. Um indiano comprou-os a um museu inglês com o argumento de os devolver à India, onde pertenciam.
Pessoalmente, não é o valor dos objectos que me surpreendem. É o facto de ele “continuar vivo”. Uma pessoa que nada tinha, conseguiu dar um país a milhões de pessoas para que o chamassem de seu! Concordo com Einstein.

25/02/09

Medição do nosso tempo...



Como é estranha a medição do nosso tempo...

Existe o tempo de cada um e o tempo do Mundo. O relógio marca as horas, as distâncias entre o dia e a noite. E todos os dias o Sol nasce independentemente da nossa vontade. E a noite cai mesmo que não queiramos que ela venha. E assim se passa o tempo que trazemos para nós mesmos. Por vezes, vivemos como se ele não passasse ou desejamos que ele passe mais depressa, quando, senhor dos seus ponteiros, governa todos os momentos dos nossos dias.

Como é estranha a medição do nosso tempo...

Marcamos a cadência do coração pelas batidas por minuto e que tempo lhe damos para que ele sare, ou o que fazemos todo o tempo para que ele não adoeça? Não será uma ironia sermos comandados pelo tempo e sermos senhores do nosso tempo?

Como é estranha a medição do nosso tempo...

Damos tempo ao coração, aos amigos, à família, ao trabalho e a tudo o mais que exija um pouco do nosso tempo, mas que fazemos com o tempo que nos é concedido a cada dia à nossa vida? Paramos no tempo? Aceleramos? Perdemo-lo? Aproveitamos?

Como é estranha a medição do nosso tempo...

Que tempo me dou a mim? Que tempo o tempo me dá?
Trago comigo o tempo do passado, espero pelo que virá e que faço eu com este presente que, a todo o momento se torna eterno?
Tal como ninguém se abriga na chuva em dia tormentoso, também a história da nossa vida não se faz sem tempo.

Como é estranha a medição do nosso tempo...

Tal como dizia o poeta, há um tempo para chorar e outro para sorrir, há um tempo para partir e outro para voltar. Qual o tempo de uma árvore que acolhe a si os ramos que nela crescem? Quantas mãos tocam a rocha que é deixada eternamente ao sabor do vento?

Como é estranha a medição do nosso tempo...

Qual é o tempo da nossa eternidade? O tempo colhe a juventude e traz a sabedoria. Recordar-te-ão não pelo que tens, mas pelo tempo que lhes pudeste conceder.
Olha para as tuas mãos com calma e recorda o que já acolheram, o que fizeram, tal como um bordado perfeito sem esquemas de revista e verás o que fizeste com o teu tempo. E só com o tempo chegamos à conclusão de que um monstro passou a ser apenas uma sombra fugaz e uma montanha inacessível uma ligeira inclinação.

Como é estranha a medição do nosso tempo...


12/02/09

Velhos...



Sou o que resta de um passado
Num presente mal-tratado,
E um futuro mais que incerto.
Vou percorrer mais avenidas
Ganhar batalhas perdidas,
Inventar um rumo certo.
Mas, se quiserem que eu me vá embora
Não me digam que eu fico de fora,
Só por estar no fim de uma longa carreira.
E nesta hora em que a luz se apaga
Vai-se o dia e o silêncio acaba,
E eu vou ficar sózinho sem ninguém à beira.
Sou aos olhos de muita gente
A figura decadente,
Neste banco junto ao rio.
Vou lançar olhares a quem passa
Ver a água correr sem pressa,
Deixar que me visitem as pombas.

05/02/09

Realizar


Para erros há perdão.

Para fracassos há chance.

Para amores impossíveis há tempo.

Não deixes a saudade sufocar, nem a rotina incomodar.

Desconfia do destino e acredita em ti.

Realiza em vez de sonhar, e vive em vez de esperar.

Faz da tua felicidade o teu principal objectivo.


22/01/09

Curtos momentos, eternos os pensamentos...


Não gosto de dizer adeus nem a nada nem a ninguém. Por vezes torna-se obrigatório um aceno, um longo abraço, algumas palavras de despedida. Dizer adeus quando se parte sem dia marcado de regresso, é como antecipar um fim que não existe. Um até breve é o espaço de um tempo de um curto momento, mas que se recorda nos dias que se irão seguir.
Num despregar de dedos, recorda-se o calor que fica de umas mãos que nos apertaram, um calor mais forte que uma lareira acesa que não aquece o coração. No despregar de um beijo, recorda-se o calor dos lábios que se pregou ao rosto e dele não sai. Num abraço forte, recorda-se o aconchego da harmonia dos corpos entrelaçados. Ouvir o disco favorito tocar e depois guardá-lo para ouvir um dia, é lembrar que a nossa musica não parte, mas ali fica, tal como os livros que ficarão poeirentos, mas que esperam e não maçarão ninguém. Ninguém nem nada se alimenta de um adeus, mas de todos os gestos que o precederam.
Nada se perde, e dizer adeus por fora é criar laços eternos para dentro, numa história que se entrelaça com o primeiro passo depois da despedida. Ninguém me poderá dizer um dia: esqueceste-me! Eu direi: nunca te disse adeus, mas ausentei-me apenas durante um tempo necessário da tua presença física. O meu disco favorito reclamará: nunca mais me ouviste! Eu direi: não esqueci as tuas músicas.
Nunca posso dizer adeus ao que está e fica dentro de mim. Por isso não gosto de dizer adeus nem a nada nem a ninguém.